abril 24, 2021

O futuro é DEF


Uma conhecida, mãe de uma colega da Clara, me escreveu pra contar que uma grande amiga está com metade do corpo paralisado (hemiplegia), sequela de covid. "Muito triste", disse ela. Essa mesma pessoa me pediu, certa vez que a filha dela vinha brincar na minha casa, para que eu mostrasse o Lucas pra menina. Ela queria que a filha "desse mais valor à vida". Capacitismo que fala? Chamo isso de pensamento alavanca. Usar a condição vulnerável do outro (seja física, intelectual, social, econômica, cultural) para se sentir melhor, mais confortável, na sua própria condição. Nivelar por baixo sem qualquer fresta pra empatia. Além de ser muito desrespeitoso! P. T. Barnum tiraria muito dinheiro dela, de certo. Respondi uma mensagem educada e afetuosa, e selei com o vídeo "O futuro é DEF!", que está no canal Casa de Zuleika, no youtube. Aproveito pra recomendar o conteúdo do canal aqui. E mandar um beijo pra maravilhosa Estela Lapponi. Agradecida.

abril 17, 2021

Quando o isolamento é lugar de conforto

 


Não é fácil toda carga emocional que existe. É ainda mais pesado quando estamos sozinhos, justamente por não ter com quem dividir. Me considero muito forte até aqui, tenho dado meu melhor e também sei que não sou perfeita. A essa altura do campeonato, do nível de provações que estamos vivendo, o que tenho de bons sentimentos é o que me movimenta. Tenho procurado esquecer as diferenças e nivelar minhas relações pelo que existe de bom. Vejo o melhor de mim (e o pior tbm) nos meus filhos. Ainda peno pelo meu jeito de ser pensar falar e estar que às vezes soa agressivo. Fui criada com banho de tanque pra cessar o choro compulsivo. Reconheço que muito de minha personalidade vem do que vivi na infância, reproduzindo atitudes de corpos que me criaram, que me permearam. Há anos venho me conscientizando da responsabilidade de sair desse padrão. Não é fácil. O isolamento, nesse ponto, é um lugar de conforto. Não ter a tarefa de encarar minhas sombras espelhadas pelo outro torna tudo mais fácil, aparentemente. O mais legal é quando percebo que minhas sombras estão aqui independente da luz que vem de fora. Sinto que estou num bom caminho. Com AMOR e VERDADE sigo.

Texto criado a partir de uma conversa no wapp com um familiar.

março 08, 2021

Dia da Mulher


ser mulher estar atenta pensar independente colocar limites fazer escolhas se sentir culpada ser julgada chamada de louca exigir respeito liberdade equidade justiça se sentir sozinha censurada apagada desrespeitada excluída cansada vulnerável levanta auto estima esconde desejo supera traumas busca resiliência firma existência exerce potência ser mulher haja força fôlego e paciência.

Foto: Michael Ochs

fevereiro 18, 2021

Só por hoje


Ser mãe é... anotar na geladeira pra não esquecer o compromisso, passar o dia se organizando e na hora a maternidade colocar todos os seus planos em segundo plano.

Em respeito ao dia Nacional da Luta contra o Alcoolismo, eu não vou beber.


 

janeiro 24, 2021

Verdades sejam ditas

"Guardando segredos ou uma alegria pra quem vive no silêncio."
(vídeo postado no Instagram @anicires)

"Muito difícil isso", foi o comentário enviado por uma amiga que tem um filho com deficiência severa, muito similar ao Lucas.

Essa é a real empatia real pra mim.

dezembro 03, 2020

Ninguém solta a mão de ninguém.

A mão da pessoa com deficiência tá na roda também!


abril 18, 2019

O Lucas Chamou o Mar, uma devolutiva de olhar

Muito tem se falado sobre diversidade. Múltiplas são as vertentes, mas tenho visto a deficiência ganhando fala e se tornando um nicho temático de discussão. Vejo histórias inspiradoras de superação ganhando voz. Vidas de pessoas que, assim como eu, vivem uma realidade diversa e inóspita.

Mulheres maravilhosas que correm maratonas com seus filhos empurrando suas cadeiras de rodas, ou que publicam livros, dão palestras sobre suas experiências, e lutam por causas. Vejo pessoas com deficiência transformando sua realidade com esporte, com ARTE.

Me sinto representada, acolhida. Ainda assim, há o meu grito. 

Não fui capaz de correr uma maratona com meu filho, nem escrever um livro sobre essa experiência, muito menos vê-lo ser um artista ou esportista paraolímpico... Não sofro. Aprendi a reconhecer nossas limitações e aceitá-las. Dói menos. Mas o desejo de fazer algo com a condição Lucas sempre existiu. Comecei com o blog, onde utilizava a escrita como válvula de escape, um lugar para deixar fluir a carga dessa experiência tão intensa, transformadora e amorosa. Igualmente difícil, pesada e dolorosa. Pouco por ele, muito pelas pessoas.

Nossa história de superação vem do viver, da troca, do receber. Olhares, falas, julgamentos, acolhimentos, desprezo. A partir dessa nossa relação com o mundo, desses olhares sociais, nasceu uma ideia e Lucas virou um filme.

A seguir, compartilho release de apresentação do cprojeto e convido todos a mergulhar nesse mar.




'O LUCAS CHAMOU O MAR' 
Um ensaio sobre o olhar 


Projeto experimental de curta metragem documental contemplado pelo Edital de Curtas SpCine 2017; seleção oficial Media Library do Festival VISION DU RÉEL 2019 - Nyon; Festival de Cinema de Triunfo 2019; Cine Esquema Novo 2019; Curta Taquary 2020 - Prêmio Melhor Direção na categoria Primeiros Passos.
Seguindo cronograma do Edital promovido pela SpCine, a estreia do curta-metragem acontece em Abril de 2019, no CCSP.
Projeção do lançamento de um longa, em fase de montagem e busca de patrocínio/recursos/parcerias, material este selecionado no DocSP - 2017.

"O LUCAS CHAMOU O MAR” é um filme que aborda, através do retrato de uma família, temáticas e reflexões universais diretamente conectadas ao olhar para si e para o outro. O projeto nasceu do desejo da diretora Ani Cires em fazer algo com a condição especial de seu filho Lucas, no filme com 15 anos, diagnosticado com Paralisia Cerebral severa desde o nascimento.

 “Apesar de suas limitações, Lucas sempre demonstrou alegria e força em seu viver. Seu corpo não responde como os da maioria, mas tem muito a dizer, a sentir. A percepção dele é outra. O tempo dele é outro. É preciso diminuir a frequência para captar suas sutilezas. Assim como acontece com o filme”, conta a diretora sobre como sua experiência com Lucas contribuiu pro despertar de um olhar mais contemplativo pra vida e serviu de inspiração para a realização do filme.

A principal motivação para a realização do filme foi algo que Ani sempre considerou o maior dos desafios em sua vivência com Lucas: os olhares sociais. “Lidar com o preconceito, a estranheza, a falta de conhecimento e de trato perante um deficiente e seus familiares, pode se configurar mais doloroso do que lidar com a própria deficiência”. No filme, inteiro rodado em primeira pessoa, partindo da visão de Lucas, Ani empresta ao espectador o olhar contemplativo de seu filho como um convite a um mergulho interior em experiências, emoções e sentimentos individuais. Uma devolutiva de olhar, sob um outro ponto de vista, que induz o espectador a refletir sobre a sua própria experiência e seu olhar pra vida e para o próximo, cada qual, com suas peculiaridades.

O processo criativo iniciou-se em Abril de 2016. A captação das imagens do cotidiano da família, iniciaram-se no mesmo período e estenderam por um ano, sendo as últimas imagens feitas em Maio de 2017. Da concepção da ideia à finalização do projeto passaram-se dois anos. Uma documentação rica e potente que rendeu material para dois filmes, o curta "O LUCAS CHAMOU O MAR", apresentado aqui, e um longa-metragem em fase de desenvolvimento.


SINOPSE CURTA
Ani e seus dois filhos, Lucas e Clara, levam uma vida comum na Zona Sul de São Paulo, mas o comum e o extraordinário; o cotidiano e a poesia se fundem nesse ensaio sobre o olhar que convida a um mergulho em águas profundas e fluidas, num só fôlego.


 


SINOPSE LONGA
O curta-metragem documental "O Lucas Chamou o Mar" retrata o cotidiano de um núcleo familiar composto por Ani, 34 anos, e seus dois filhos Lucas, 15, e Clara, 6. A partir do olhar de Lucas, o filme é construído através de imagens captadas do real e com a inserção de imagens poéticas, metaforizando e/ou referenciando os sentimentos e sensações vividos pelo personagem. No filme, a fusão do que é orgânico e vivo: ruídos do mar, do respirar - ruídos do existir dentro e fora.

Mais do que mostrar como vive uma família específica, o filme se propõe a desafiar olhares provocando reinterpretações que transformam em poesia uma realidade não tão poética e, a partir de uma experiência individual, provocar no espectador a reflexão sobre seu próprio olhar para a vida e para o próximo, e entender como o seu enxergar ecoa através de uma experiência individual específica, desencadeando pensamentos e emoções diferentes para cada perspectiva.


FICHA TÉCNICA: 
Empresa Produtora Frontera Filmes
Responsável Criador Ani Cires
Produção Executiva Luiza Marques da Costa e Tiago Pinheiro 
Roteiro e Direção Ani Cires
Direção de Produção Luiza Marques da Costa 
Direção de Fotografia Ani Cires e Tiago Pinheiro 
Assistência de Fotografia Marcela Chamilian 
Som Direto Thiago Ferraz 
Montagem e Colorização Tiago Pinheiro 
Folley, SFX e Mixagem Pedro Luce 
Trilha Sonora Original André Bruni e Pedro Luce
Tradução e Legendagem CD Vallada
Empresa de Design Gráfico Design Justo 
Arte Gráfica Marcelo Gava e Nina Cast 
Personagens Ani Cires, Clara Cires e Lucas Cires


Acompanhe o filme nas mídias sociais:


outubro 29, 2015

Fantasiar pra clarear

Ontem, o Lucas fez uma visita à dentista por conta de um dente de leite quebrado que ficou esmagado entre dois dentes permanentes. Triste fim pra um dentinho de leite... Aos cacos, a dentista foi tirando pedacinho por pedacinho e colocando sobre uma gaze. A Clara, que acompanhava a consulta de perto, olhou decepcionada pro pobre dente lamentando que não teríamos a visita da fada naquela noite. Eis que a dentista sugere a extração de mais um dente, um canino que vinha fazendo o papel de figurante num espaço que outro dente deveria ocupar. E assim, o Lucas se livrou de seus dois últimos dentes de leite.

Não há dúvidas que dentes de leite não cabiam mais na boca e nem na vida do Lucas. Com 14 anos, a fada do dente já está fazendo hora extra. Sim!! Eu sou dessas mães que adora alimentar fantasias (me julguem por isso!), principalmente pela oportunidade de utilizá-las como ferramentas lúdicas de expressão e comunicação com a criança. E foi exatamente o que fiz na noite passada.

Clara saiu do consultório carregando o canino do Lucas dentro de uma caixinha como se estive levando o tesouro mais valioso do mundo. E para ela, aquele dente era mesmo muito valioso. Ele era o "Vale-Visita" da fada do dente que ela usaria naquela noite

No caminho pra casa, ela adormeceu no carro segurando a caixinha na mão. Chegamos em casa, coloquei ela na cama, capotada, mas com a caixinha na mão. Lá pelas tantas, fui levá-la ao banheiro, antes de colocar o Lucas para dormir e ir me deitar também. Quando coloquei ela de volta na cama, ela abriu os olhos, preocupada, buscando pela caixinha. Agarrou-a em sua mão e voltou a dormir. Tive que convocar poderes-ninja pra tirar aquela caixinha de dentro de sua mão cerrada.

Hoje cedo, ao acordar, ela me chamou dizendo que a caixinha havia sumido. Disse à ela pra procurar na cama do Lucas, pois eu tinha colocado a caixinha com o dente lá. E então ela vai ao meu quarto, encantada, segurando a caixinha sem o dente dentro, uma carta salpicada de pó mágico (golpe baixo!), um "dinheirinho" pro Lucas e um "tesourinho" pra ela.

E nessa manhã, a Clara foi a criança mais feliz do mundo ao saber pela própria fada (uau! Isso é verdadeiramente especial) que o Lucas ama muito a irmã carinhosa e corajosa que ele tem.

Assim, com ajuda da magia, fica claro o que às vezes não se consegue fazer entender...

março 24, 2015

Como seria?


Não há como não pensar, como não imaginar. O mundo está aí repleto de coisas acontecendo, crianças crescendo e se transformando. Como seria se tudo tivesse sido diferente?

Do que gostaria de brincar?

Quais seriam suas canções favoritas?

Gostaria de dançar?

O que lhe faria rir?

E chorar?

Que tipo faria o seu coração acelerar?

Quando aconteceria o seu primeiro amor?

E a sua primeira desilusão?

Quais seriam suas confidências?

Protegeria sua irmã?

Seria popular na escola?

Teria muitos amigos?

Seria tímido?

Que matérias teria mais afinidade?

Como seriam seus desenhos?

E a sua letra?

Quais seriam suas cores favoritas?

E comidas?

Muito ou pouco?

Pés calçados ou descalços?

Mar ou piscina?

Inverno ou verão?

Futebol ou fórmula 1?

O que gostaria de ser quando crescesse?

Tantas perguntas sem respostas, tantas lacunas em branco...

Fecho meus olhos tentando imaginar você dançando, cantando, correndo, rindo, desenhando, seu andar, sua voz,... Como seria?

Então, abro os olhos e lá está você na sua quietude, vivenciado serenamente sua secreta experiência. Na imensidão do seu silêncio é onde mora o meu amor, onde sou capaz de aceitar e amar plenamente cada lacuna em branco, te amar do jeito que você é.

Desculpe o meu lamento. Às vezes o meu coração birrento esmurra meu peito desejando a criança que você poderia ter sido... Enquanto eu sonho com um universo inteiro de possibilidades pra você, você é feliz por abrir seus olhos, por respirar, por ouvir os sons e os cheiros do mundo, por experimentar sensações diferentes na presença das pessoas que ama. Você é feliz por estar vivo.

Isso basta.

novembro 25, 2014

Milagre é ponto de vista

A abordagem das pessoas para me perguntar sobre o Lucas tem acontecido com mais freqüência. Talvez eu esteja mais aberta a isso. Não tem esse lance da "lei da atração"? Pois é, ando mesmo numa fase de questionamentos internos. Ser questionada por outras pessoas, outros olhares, me tira da zona de conforto e vai além do que minha consciência tem coragem de confrontar.

E não vale ser qualquer questionamento. Sou exigente. Outro dia, estava no Ibirapuera com as crianças e um rapaz se aproximou, olhou o Lucas e começou a puxar assunto: "O que ele tem? Quando teve? ...". Muita gente usa experiências próprias pra criar alguma identificação. O rapaz começou a me contar que tinha um primo que teve paralisia infantil e uma outra prima que tinha atraso de atenção. Ops! Acho que o rapaz quis dizer déficit de atenção. Ri por dentro. Me despedi do rapaz e fui correndo, e empurrando o Lucas, atrás da Clarinha que já estava em outro brinquedo.

Na amarelinha, Clara observava uma menina que não tinha muita afinidade com a brincadeira e arriscava uns pulinhos. O pai da menina, que tinha um olho na filha e outro no Lucas, convidou a Clara pra se juntar à brincadeira. Não me lembro qual foi a abordagem desse pai com relação ao Lucas, acho que foi algo parecido com o rapaz de uns momentos antes, bem normal. O diálogo seguiu assim até ele me perguntar:

"- Você crê na recuperação dele?"

Diante dessa pergunta, e de alguns outros comentários proferidos durante o nosso diálogo, saquei que o cara era evangélico e entendi a que tipo de "recuperação" ele se referia.

"- Olha, sou muito realista. Não acredito em milagre. Tenho conhecimento pleno de sua deficiência, aceito e amo do jeito ele é. Acho que esperar do Lucas mais do que ele pode me dar só gera frustração pra mim e pra ele, que sente a cobrança e a aflição das expectativas e não consegue corresponder à altura."

O assunto Lucas acabou aí. As meninas continuaram na amarelinha e o foco do assunto se voltou pra brincadeira.

Na correria do dia-a-dia, algumas sutilezas do Lucas acabam passando despercebidas. Há cerca de um mês, decidimos pegar uma outra cachorra, outra pitbull. Durante toda a semana, o assunto em casa foi a visita ao canil no final de semana pra conhecer os cachorrinhos e quem sabe trazer um pra casa. No sábado dessa semana, dia em que havíamos combinado a visita, o Lucas acordou muito animado, pura excitação! O canil fica em Guararema, cerca de 40 minutos de São Paulo. Durante todo o trajeto ele foi assim, animadíssimo, mexendo as pernas, sorrindo, ofegante. Lucas costuma ser bem alegre, mas estava acima do normal. Chegando ao canil, haviam quatro filhotinhos. Umas fofuras! Colocamos os bebês no colo do Lucas, que continuava muito feliz. Os filhotes ainda precisavam ser vacinados e vermifugados, então, fomos embora sem levar nenhum deles. No caminho de volta, o Lucas foi chorando a viagem toda. Eu, preocupada que ele estivesse desconfortável na cadeirinha do carro, pulei pro banco de trás e comecei a massagear suas pernas tentando deixá-lo confortável. Sem sucesso. Meu marido teve um estalo e se lembrou da animação do Lucas na ida. A insatisfação do Lucas não era de um desconforto físico. Sua dor era interna, era decepção. Ele chorava porque estava voltando pra casa sem a cachorrinha que tanto falamos que íamos pegar durante a semana.

Não estou aqui para discutir fé, muito menos religião. Poupo-me de acreditar no milagre que "cura" (em nome de Jesus!) deficientes severos e os fazem levantar de suas cadeiras de rodas e sair andando e falando. Pra mim, o Lucas é um milagre. Cada instante da sua existência, suas manifestações sutis, sua força, sua alegria, sua serenidade diante do caos em que vivemos, isso sim é um milagre!