O dia amanheceu cinza. O céu, as noticias. Densidade pra todos os lados. Infinita repetição. Difícil encarar fora quando dentro já é muito. Por aqui, atrás do veú, o lanche da tarde: Lucas ensopado. Acidentes da gastrostomia. Fazia tempo que não acontecia. Já foi motivo de raiva, de riso. Hoje, medito. E faço o que precisa ser feito: limpo. O banho pra ele, que já não é todo dia, faz a alegria. E tento transformar em poesia. Fôlego aos dias.
maio 05, 2021
abril 24, 2021
O futuro é DEF
Uma conhecida, mãe de uma colega da Clara, me escreveu pra contar que uma grande amiga está com metade do corpo paralisado (hemiplegia), sequela de covid. "Muito triste", disse ela. Essa mesma pessoa me pediu, certa vez que a filha dela vinha brincar na minha casa, para que eu mostrasse o Lucas pra menina. Ela queria que a filha "desse mais valor à vida". Capacitismo que fala? Chamo isso de pensamento alavanca. Usar a condição vulnerável do outro (seja física, intelectual, social, econômica, cultural) para se sentir melhor, mais confortável, na sua própria condição. Nivelar por baixo sem qualquer fresta pra empatia. Além de ser muito desrespeitoso! P. T. Barnum tiraria muito dinheiro dela, de certo. Respondi uma mensagem educada e afetuosa, e selei com o vídeo "O futuro é DEF!", que está no canal Casa de Zuleika, no youtube. Aproveito pra recomendar o conteúdo do canal aqui. E mandar um beijo pra maravilhosa Estela Lapponi. Agradecida.
abril 17, 2021
Quando o isolamento é lugar de conforto
Não é fácil toda carga emocional que existe. É ainda mais pesado quando estamos sozinhos, justamente por não ter com quem dividir. Me considero muito forte até aqui, tenho dado meu melhor e também sei que não sou perfeita. A essa altura do campeonato, do nível de provações que estamos vivendo, o que tenho de bons sentimentos é o que me movimenta. Tenho procurado esquecer as diferenças e nivelar minhas relações pelo que existe de bom. Vejo o melhor de mim (e o pior tbm) nos meus filhos. Ainda peno pelo meu jeito de ser pensar falar e estar que às vezes soa agressivo. Fui criada com banho de tanque pra cessar o choro compulsivo. Reconheço que muito de minha personalidade vem do que vivi na infância, reproduzindo atitudes de corpos que me criaram, que me permearam. Há anos venho me conscientizando da responsabilidade de sair desse padrão. Não é fácil. O isolamento, nesse ponto, é um lugar de conforto. Não ter a tarefa de encarar minhas sombras espelhadas pelo outro torna tudo mais fácil, aparentemente. O mais legal é quando percebo que minhas sombras estão aqui independente da luz que vem de fora. Sinto que estou num bom caminho. Com AMOR e VERDADE sigo.
Texto criado a partir de uma conversa no wapp com um familiar.
Texto criado a partir de uma conversa no wapp com um familiar.
março 08, 2021
Dia da Mulher
ser mulher estar atenta pensar independente colocar limites fazer escolhas se sentir culpada ser julgada chamada de louca exigir respeito liberdade equidade justiça se sentir sozinha censurada apagada desrespeitada excluída cansada vulnerável levanta auto estima esconde desejo supera traumas busca resiliência firma existência exerce potência ser mulher haja força fôlego e paciência.
Foto: Michael Ochs
fevereiro 18, 2021
Só por hoje
Ser mãe é... anotar na geladeira pra não esquecer o compromisso, passar o dia se organizando e na hora a maternidade colocar todos os seus planos em segundo plano.
Em respeito ao dia Nacional da Luta contra o Alcoolismo, eu não vou beber.
Em respeito ao dia Nacional da Luta contra o Alcoolismo, eu não vou beber.
janeiro 24, 2021
Verdades sejam ditas
abril 18, 2019
O Lucas Chamou o Mar, uma devolutiva de olhar
Muito tem se falado sobre diversidade. Múltiplas são as vertentes, mas tenho visto a deficiência ganhando fala e se tornando um nicho temático de discussão. Vejo histórias inspiradoras de superação ganhando voz. Vidas de pessoas que, assim como eu, vivem uma realidade diversa e inóspita.
Mulheres maravilhosas que correm maratonas com seus filhos empurrando suas cadeiras de rodas, ou que publicam livros, dão palestras sobre suas experiências, e lutam por causas. Vejo pessoas com deficiência transformando sua realidade com esporte, com ARTE.
Me sinto representada, acolhida. Ainda assim, há o meu grito.
Mulheres maravilhosas que correm maratonas com seus filhos empurrando suas cadeiras de rodas, ou que publicam livros, dão palestras sobre suas experiências, e lutam por causas. Vejo pessoas com deficiência transformando sua realidade com esporte, com ARTE.
Me sinto representada, acolhida. Ainda assim, há o meu grito.
Não fui capaz de correr uma maratona com meu filho, nem escrever um livro sobre essa experiência, muito menos vê-lo ser um artista ou esportista paraolímpico... Não sofro. Aprendi a reconhecer nossas limitações e aceitá-las. Dói menos. Mas o desejo de fazer algo com a condição Lucas sempre existiu. Comecei com o blog, onde utilizava a escrita como válvula de escape, um lugar para deixar fluir a carga dessa experiência tão intensa, transformadora e amorosa. Igualmente difícil, pesada e dolorosa. Pouco por ele, muito pelas pessoas.
Nossa história de superação vem do viver, da troca, do receber. Olhares, falas, julgamentos, acolhimentos, desprezo. A partir dessa nossa relação com o mundo, desses olhares sociais, nasceu uma ideia e Lucas virou um filme.
Nossa história de superação vem do viver, da troca, do receber. Olhares, falas, julgamentos, acolhimentos, desprezo. A partir dessa nossa relação com o mundo, desses olhares sociais, nasceu uma ideia e Lucas virou um filme.
A seguir, compartilho release de apresentação do cprojeto e convido todos a mergulhar nesse mar.
'O LUCAS CHAMOU O MAR'
Um ensaio sobre o olhar
Projeto experimental de curta metragem documental contemplado pelo Edital de Curtas SpCine 2017; seleção oficial Media Library do Festival VISION DU RÉEL 2019 - Nyon; Festival de Cinema de Triunfo 2019; Cine Esquema Novo 2019; Curta Taquary 2020 - Prêmio Melhor Direção na categoria Primeiros Passos.
Seguindo cronograma do Edital promovido pela SpCine, a estreia do curta-metragem acontece em Abril de 2019, no CCSP.
Projeção do lançamento de um longa, em fase de montagem e busca de patrocínio/recursos/parcerias, material este selecionado no DocSP - 2017.
Seguindo cronograma do Edital promovido pela SpCine, a estreia do curta-metragem acontece em Abril de 2019, no CCSP.
Projeção do lançamento de um longa, em fase de montagem e busca de patrocínio/recursos/parcerias, material este selecionado no DocSP - 2017.
"O LUCAS CHAMOU O MAR” é um filme que aborda, através do retrato de uma família, temáticas e reflexões universais diretamente conectadas ao olhar para si e para o outro. O projeto nasceu do desejo da diretora Ani Cires em fazer algo com a condição especial de seu filho Lucas, no filme com 15 anos, diagnosticado com Paralisia Cerebral severa desde o nascimento.
“Apesar de suas limitações, Lucas sempre demonstrou alegria e força em seu viver. Seu corpo não responde como os da maioria, mas tem muito a dizer, a sentir. A percepção dele é outra. O tempo dele é outro. É preciso diminuir a frequência para captar suas sutilezas. Assim como acontece com o filme”, conta a diretora sobre como sua experiência com Lucas contribuiu pro despertar de um olhar mais contemplativo pra vida e serviu de inspiração para a realização do filme.
A principal motivação para a realização do filme foi algo que Ani sempre considerou o maior dos desafios em sua vivência com Lucas: os olhares sociais. “Lidar com o preconceito, a estranheza, a falta de conhecimento e de trato perante um deficiente e seus familiares, pode se configurar mais doloroso do que lidar com a própria deficiência”. No filme, inteiro rodado em primeira pessoa, partindo da visão de Lucas, Ani empresta ao espectador o olhar contemplativo de seu filho como um convite a um mergulho interior em experiências, emoções e sentimentos individuais. Uma devolutiva de olhar, sob um outro ponto de vista, que induz o espectador a refletir sobre a sua própria experiência e seu olhar pra vida e para o próximo, cada qual, com suas peculiaridades.
O processo criativo iniciou-se em Abril de 2016. A captação das imagens do cotidiano da família, iniciaram-se no mesmo período e estenderam por um ano, sendo as últimas imagens feitas em Maio de 2017. Da concepção da ideia à finalização do projeto passaram-se dois anos. Uma documentação rica e potente que rendeu material para dois filmes, o curta "O LUCAS CHAMOU O MAR", apresentado aqui, e um longa-metragem em fase de desenvolvimento.
SINOPSE CURTA
Ani e seus dois filhos, Lucas e Clara, levam uma vida comum na Zona Sul de São Paulo, mas o comum e o extraordinário; o cotidiano e a poesia se fundem nesse ensaio sobre o olhar que convida a um mergulho em águas profundas e fluidas, num só fôlego.
SINOPSE LONGA
O curta-metragem documental "O Lucas Chamou o Mar" retrata o cotidiano de um núcleo familiar composto por Ani, 34 anos, e seus dois filhos Lucas, 15, e Clara, 6. A partir do olhar de Lucas, o filme é construído através de imagens captadas do real e com a inserção de imagens poéticas, metaforizando e/ou referenciando os sentimentos e sensações vividos pelo personagem. No filme, a fusão do que é orgânico e vivo: ruídos do mar, do respirar - ruídos do existir dentro e fora.
Mais do que mostrar como vive uma família específica, o filme se propõe a desafiar olhares provocando reinterpretações que transformam em poesia uma realidade não tão poética e, a partir de uma experiência individual, provocar no espectador a reflexão sobre seu próprio olhar para a vida e para o próximo, e entender como o seu enxergar ecoa através de uma experiência individual específica, desencadeando pensamentos e emoções diferentes para cada perspectiva.
FICHA TÉCNICA:
Empresa Produtora Frontera Filmes
Responsável Criador Ani Cires
Produção Executiva Luiza Marques da Costa e Tiago Pinheiro
Roteiro e Direção Ani Cires
Direção de Produção Luiza Marques da Costa
Direção de Fotografia Ani Cires e Tiago Pinheiro
Assistência de Fotografia Marcela Chamilian
Som Direto Thiago Ferraz
Montagem e Colorização Tiago Pinheiro
Folley, SFX e Mixagem Pedro Luce
Trilha Sonora Original André Bruni e Pedro Luce
Tradução e Legendagem CD Vallada
Empresa de Design Gráfico Design Justo
Arte Gráfica Marcelo Gava e Nina Cast
Personagens Ani Cires, Clara Cires e Lucas Cires
Acompanhe o filme nas mídias sociais:
outubro 29, 2015
Fantasiar pra clarear
Ontem, o Lucas fez uma visita à dentista por conta de um dente de leite quebrado que ficou esmagado entre dois dentes permanentes. Triste fim pra um dentinho de leite... Aos cacos, a dentista foi tirando pedacinho por pedacinho e colocando sobre uma gaze. A Clara, que acompanhava a consulta de perto, olhou decepcionada pro pobre dente lamentando que não teríamos a visita da fada naquela noite. Eis que a dentista sugere a extração de mais um dente, um canino que vinha fazendo o papel de figurante num espaço que outro dente deveria ocupar. E assim, o Lucas se livrou de seus dois últimos dentes de leite.Não há dúvidas que dentes de leite não cabiam mais na boca e nem na vida do Lucas. Com 14 anos, a fada do dente já está fazendo hora extra. Sim!! Eu sou dessas mães que adora alimentar fantasias (me julguem por isso!), principalmente pela oportunidade de utilizá-las como ferramentas lúdicas de expressão e comunicação com a criança. E foi exatamente o que fiz na noite passada.
Clara saiu do consultório carregando o canino do Lucas dentro de uma caixinha como se estive levando o tesouro mais valioso do mundo. E para ela, aquele dente era mesmo muito valioso. Ele era o "Vale-Visita" da fada do dente que ela usaria naquela noite.
No caminho pra casa, ela adormeceu no carro segurando a caixinha na mão. Chegamos em casa, coloquei ela na cama, capotada, mas com a caixinha na mão. Lá pelas tantas, fui levá-la ao banheiro, antes de colocar o Lucas para dormir e ir me deitar também. Quando coloquei ela de volta na cama, ela abriu os olhos, preocupada, buscando pela caixinha. Agarrou-a em sua mão e voltou a dormir. Tive que convocar poderes-ninja pra tirar aquela caixinha de dentro de sua mão cerrada.
Hoje cedo, ao acordar, ela me chamou dizendo que a caixinha havia sumido. Disse à ela pra procurar na cama do Lucas, pois eu tinha colocado a caixinha com o dente lá. E então ela vai ao meu quarto, encantada, segurando a caixinha sem o dente dentro, uma carta salpicada de pó mágico (golpe baixo!), um "dinheirinho" pro Lucas e um "tesourinho" pra ela.
E nessa manhã, a Clara foi a criança mais feliz do mundo ao saber pela própria fada (uau! Isso é verdadeiramente especial) que o Lucas ama muito a irmã carinhosa e corajosa que ele tem.
Assim, com ajuda da magia, fica claro o que às vezes não se consegue fazer entender...
março 24, 2015
Como seria?

Do que gostaria de brincar?
Quais seriam suas canções favoritas?
Gostaria de dançar?
O que lhe faria rir?
E chorar?
Que tipo faria o seu coração acelerar?
Quando aconteceria o seu primeiro amor?
E a sua primeira desilusão?
Quais seriam suas confidências?
Protegeria sua irmã?
Seria popular na escola?
Teria muitos amigos?
Seria tímido?
Que matérias teria mais afinidade?
Como seriam seus desenhos?
E a sua letra?
Quais seriam suas cores favoritas?
E comidas?
Muito ou pouco?
Pés calçados ou descalços?
Mar ou piscina?
Inverno ou verão?
Futebol ou fórmula 1?
O que gostaria de ser quando crescesse?
Tantas perguntas sem respostas, tantas lacunas em branco...
Fecho meus olhos tentando imaginar você dançando, cantando, correndo, rindo, desenhando, seu andar, sua voz,... Como seria?
Então, abro os olhos e lá está você na sua quietude, vivenciado serenamente sua secreta experiência. Na imensidão do seu silêncio é onde mora o meu amor, onde sou capaz de aceitar e amar plenamente cada lacuna em branco, te amar do jeito que você é.
Desculpe o meu lamento. Às vezes o meu coração birrento esmurra meu peito desejando a criança que você poderia ter sido... Enquanto eu sonho com um universo inteiro de possibilidades pra você, você é feliz por abrir seus olhos, por respirar, por ouvir os sons e os cheiros do mundo, por experimentar sensações diferentes na presença das pessoas que ama. Você é feliz por estar vivo.
Isso basta.
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